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Found it Gato Maltês found Ribeiro de Moel #1

Thursday, January 31, 2013Leiria, Portugal

[blue]#608[/blue] - 16:20

A mim, basta-me um raio de sol e ar nos pneus da bicicleta para me sentir feliz e com as baterias totalmente carregadas. Não é à toa que na minha nuca, criado por milhares de picadas de agulha com tinta negra, está um desenho não-efémero que simboliza o astro-rei.
Esta semana que já vai a mais de meio, e que hoje encerra o mês dedicado ao deus Jano, revelou-se bastante soalheira, pelo que os meus acumuladores estavam quase sobrecarregados.

É certo que este tipo de energia que nos dá alento ainda não é objecto de taxa ou imposto, mas nos tempos que correm as coisas mudam à velocidade da luz, pelo que, não fosse algum iluminado inventar uma máquina que avaliasse a quantidade de animosidade que um determinado ser possui, para de seguida lhe aplicar a coima devida, achei por bem ir gastar uma porção avantajada da mesma. É que ele há coisas, e não fosse o demo armar-se em tecelão e montar um esquema para me atazanar a boa disposição, decidi iniciar o processo que transforma a energia potencial em cinética, usando para isso uma máquina muito avançada a que o comum dos mortais costuma chamar de bike ou bicicleta.

O processo responsável por levar a energia, que inunda o bem-estar, desde os acumuladores até aos pedais é algo complexo e, para evitar que este relato não seja substituto do bom processo de contar carneiros para adormecer, vou fazer aquela coisa que os camones chamam de “skip it and go ahead”.
Com a imaginação polvilhada pelas recordações do local que ia revisitar, e que está vários degraus acima da classificação de “bem conhecido”, a motivação para converter o movimento alternado de vaivém das pernas em movimento de rotação contínuo das rodas estava no máximo. Cheguei até a pensar que desde minha casa até ao inicio da Ribeira de São Pedro, o caminho fosse sempre a descer, já que praticamente não dei pela distância passar.

A euforia, não abusiva que me acompanhava, converteu-se, nas primeiras centenas de metros daquela magnífica mata, num sentimento difícil de explicar e aceitar. A mãe natureza deveria estar desesperada para infligir tanta destruição e dizimar tantas daquelas que morrem de pé.
Já me tinham dito que a destruição era muita, mas o superlativo absoluto de qualquer adjectivo utilizado na descrição do desastre natural ficaria sempre aquém da realidade. Tentei não me deixar intimidar pelo semblante triste da floresta que contemplava as irmãs que jaziam por todos os lados, mas não pude evitar que uma lágrima rolasse acompanhada de outras solidárias com toda aquela melancólica devastação.

Um percurso que em condições normais demoraria uns escassos cinco minutos levou-me mais do que cinquenta dos sessenta espaços redondos do mostrador do relógio, tentando mesmo por vezes conseguir a minha desistência. Não sei como consegui, mas acabei por chegar ao local onde se escondia o primeiro dos tesouros que me tinha proposto visitar.
Com o caminho marcado pelos pés de quem procura tupperwares com conteúdo espiritual, rapidamente encontrei o que procurava.
Ali, nem um vestígio dos resquícios da tempestade. Apenas a calmaria apressada da água ferrosa que corre na ribeira, quebrava o silêncio ensurdecedor da natureza, correndo impaciente na ânsia de beijar o oceano uns milhares de metros mais abaixo.

Depois de atravessar uma espécie de campo de batalha, onde as mais intrépidas não resistiram, lá consegui vislumbrar o caminho de regresso a casa, já com o prenúncio da hora dourada a clamar como suas as nesgas que restavam por entre a vegetação e árvores que escaparam ao martírio selectivamente natural.

Quando cheguei a casa e acomodei a minha fiel montada no seu local de descanso, pareceu-me escutar algo idêntico a um suspiro, daqueles que se soltam quando se tem a alma inundada de tristeza.

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O ribeiro

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