Há quem diga que o sangue carrega ferro, mas no caso de Zé Carlos Correia, o médico desconfia que é a hemoglobina que vem misturada com liga de aço inoxidável e limalha. Nascido em Fernão Ferro em meados dos anos 70, a sua sina ficou traçada logo no berço: enquanto a mãe passava a ferro sem descanso numa lavandaria de bairro, o pai e o tio zarolho passavam os dias na Siderurgia Nacional a dobrar vigas como quem barra manteiga no pão.
Como na altura as amas escasseavam e o infantário era luxo de burguês, o pequeno Zé Carlos era transportado clandestinamente no saco das ferramentas para os locais de trabalho dos pais. Em vez de roer um chocalho de plástico, o rapaz distraía-se a fazer a dentição numa lata de conserva recheada com porcas e parafusos de métrica 8. As assaduras da fralda? Tratadas à moda antiga, com uma pincelada generosa de massa consistente para rolamentos e duas vaporizações de WD-40 para não chiar ao andar.
Aos 8 anos sofreu o seu primeiro grande abalo: ficou surdo do ouvido esquerdo, não por culpa de nenhuma infecção de infância, mas porque o tio zarolho o levou a ver o martelo-pilão da Siderurgia a cravar uma chapa de aço de três toneladas. Para o Zé Carlos, aquele estrondo retumbante não foi trauma; foi amor à primeira vibração. Fugiu de casa de seus pais e foi viver para Tróia para casa da Avó Juliana, que tinha um restaurante. Zé Carlos ganha os primeiros cobres a lavar talheres.
Aos 14 anos, já com o destino traçado, começou a trabalhar clandestinamente num ferro-velho em Ermidas do Sado. O seu quarto não cheirava a desodorizante ou a incenso de adolescente, mas sim a um perfume reconfortante de poeira de rebarbadora, limalha estragada e gasóleo agrícola. É curiosa a referência ao gasóleo agrícola na sua biografia, já que existem fontes que referem que Zé Carlos pode ter passado por um estágio remunerado na Agronobre, tendo sido dispensado ao final de uma semana por ter atirado para dentro de um carro do lixo mais de 1500 contos em garrafas de plástico vazias.
Aos 17 deu os primeiros passos na prestigiada Banda Filarmónica Apanhadinhos do Sado, integrado na secção de metais. A experiência durou pouco: foi expulso do tuba no segundo ensaio após tentar afinar o instrumento com um maçarico e uma martelada de dois quilos, alegando convictamente perante o maestro que o som original "carecia de distorção de fundição".
A vida amorosa também sofreu com esta obsessão mineral. Conheceu a primeira namorada num concerto de Metallica, mas o romance durou escassas três semanas. Terminou de forma abrupta no dia em que o Zé tentou soldar a aliança de noivado com elétrodo revestido e maçarico a tinto enquanto a moça ainda a tinha vestida no anelar.
Hoje, a lenda do Zé Carlos, um chavalo de Tróia estende-se muito para lá de Sagres. É apontado como o verdadeiro padrinho espiritual e responsável direto pela génese de mais de 30 bandas de heavy metal só no concelho de Borba , tendo moldado a soco e pontapé a cena musical alentejana.
Actualmente, divide os seus dias com a sabedoria dos mestres: continua a ensinar a arte do ferrinho aos miúdos no Agrupamento de Escolas de Porto Covo — incutindo o amor pelo metal na juventude — e passa os saraus na sua oficina a desmanchar esquentadores velhos para os converter em imponentes esculturas metálicas.

O «Chavalo de Tróia», obra de arte com cenas soldadas. Primeiros esboços.
Foto: Mimi Canelas / Hold Your Horses Images
Uma das suas obras-primas mais aclamadas é precisamente este «Chavalo de Tróia», auto-retrato forjado a partir de sucata de carrinhos de mão, ferramentas agrícolas, pára-choques de ford transit e duas braçadeiras de chaminé. Uma verdadeira ode ao metal nacional!
Depois de admirarem a obra, e para obterem as coordenadas finais, deverão contar quantas tiras de metal formam a crina do estrepitoso animal. Vejam a imagem spoiler se não fazem ideia do que é uma tira de metal.
Tenham atenção aos pormenores.
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Se só sabes contar até 5, a cache está em N37 9.942 W7 31.114
Se são 80, estás a ver o cavalo errado, mas a cache está em N37 9.920 W7 31.190
Se estás farto e não queres contar, a cache não está em N37 9.915 W7 31.145
English version:
You're missing all the fun and runining all my effort. Count the number of metal strips on the head of the horse. See the spoiler image for reference. Use the value obtained on the list of coordinates above. Good luck, have fun, don't do anything dumb.