O certificado da "bateira" João Pedro, emitido pelo Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, através da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo, em 2007, com as características da embarcação.
O saveiro como lar
Nas primeiras décadas do século XX, os avieiros viviam em migrações pendulares entre Vieira de Leiria e as margens do Tejo. Em Novembro procuravam, entre outros tipos de peixe, o sável nas águas doces do tejo, enquanto em finais da primavera regressavam à costa marítima. Estas viagens eram inicialmente feitas em galeras puxadas por parelhas de mulas, ficando os saveiros guardados em armazéns, por exemplo no Alfange, em Santarém.
O modo de vida era particularmente duro. Sem terrenos próprios no Ribatejo, os avieiros começavam por viver nos seus barcos. Aí trabalhavam, comiam, dormiam, faziam filhos, davam à luz e até morriam. Também o facto de fazerem as necessidades à ré terá dado origem à alcunha “cagaréus”.
O saveiro era o seu lar nos meses de Inverno, e mesmo para aqueles que decidiram ficar definitivamente na zona da lezíria, o barco começou por ser a única habitação.
O característico saveiro é um barco elegante, com cerca de seis metros e meio de comprimento por metro e meio de largura. Estas embarcações eram inicialmente construídas por cada avieiro, embora alguns destes se tenham tornado mestres, executando saveiros para os colegas pescadores. Em Azinhaga do Ribatejo, Custódio Petinga é um dos últimos mestres pescadores avieiros a dominar a arte de construir saveiros, cujo esqueleto era feito de madeira de oliveira, de freixo ou de salgueiro, enquanto todos os costados eram normalmente de pinho.
Embarcação essencialmente familiar, o saveiro era dividido em três partes principais. À proa ficava o “quarto”, protegido por um toldo sempre que o clima obrigasse. Feito de pano-cru e impermeabilizado com uma mistura de linhaça e tinta, esse toldo era armado com “varelas”, ou seja, canas ou tiras de madeira. Neste quarto estendiam-se as esteiras e as mantas para as dormidas, guardadas depois no vão da proa. Durante o dia, era no quarto que se montava uma tábua, onde o remador apoiava os pés. A mesma “emparadeira” servia de divisória entre o quarto e a cozinha, ocupando esta a parte central do saveiro. Eram aqui guardados os utensílios de cozinha bem como um pequeno fogareiro a petróleo, que servia para cozinhar e aquecer as refeições. Nesta parte centrar, destacava-se ainda um banco com um furo central, que servia para colocar o mastro da vela, no caso de deslocações maiores ao longo do Tejo.
Finalmente, à ré ficava a “oficina”, isto é, o local da pesca propriamente dita, sendo aqui lançadas as redes ao rio.
Particularmente estáveis, estes barcos eram assim verdadeiras residências familiares. Durante a noite, acostados lado a lado, presos ao fundo do rio, por compridas estacas, os saveiros constituíam singulares “bairros” de avieiros em várias praias do tejo.
Nas primeiras décadas, e até sensivelmente aos anos 30 do século passado, a vida dos avieiros era, assim, de pura itinerância. Na obra Avieiros Alves Redol lembra isso mesmo, comparando aquela existência à dos ciganos:
“Vagabundos do Tejo – tendo muitos o barco como lar e as estrelas como telhas.
Debruçados no rio uma vida inteira, a colher sonhos desfeitos – sem outro rumo na carta, sem mais horizontes nos olhos. Pescadores sem tatuagens, marinheiros que não gingam a malandrar. Balouçam os ombros porque o Tejo viu nascer muitos e os embala até à morte – sempre meninos. A única tatuagem que os marca, foi a vida que lha fez – uma sombra nos rosto e um pesar no peito. Ciganos do Tejo, de porto em porto, de vela em vela, singrando neste rio tão bom e tão traiçoeiro – tão traiçoeiro e tão bom que pelas suas margens só o conhecem por Mar.”
“(…) passando o Paúl do Boquilobo, com rapidez ganha a Brôa, para depois saudar a Ermida de Nossa Senhora da Piedade, louvar a de S. João da Ventosa e as ruínas do solar dos Juzarte, para mais abaixo cortejar o que restou da presença do palácio quinhentista do infante D. Fernando, filho de D. Manuel I. Ao passar as casas entre outras, a dos Lobos, a dos Narcisos e a dos Jaquetas, cujos olhares se fixam nas suas águas espelhadas, o Almonda chega à Ponte do Cação, tirando a sede às últimas garças que dele se despedem, para momentos depois se juntar ao Tejo, como que num repouso merecido pelas agruras de que foi alvo, antes de entrar no nosso Concelho da Golegã, onde parece queres ganhar o último fôlego.” – José Veiga Maltez, 2007.
O processo de fixação no Ribatejo
A partir dos anos 30, os avieiros começaram a radicar-se no Ribatejo, pondo-se gradualmente fim à intinerância sazonal. O crescimento das famílias bem como o relativamente elevado custo das deslocações, que se começaram a fazer por comboio em vez das galeras, tornaram preferível a instalação definitiva em locais junto do Tejo. Por outro lado, a pesca no mar passou a ser um negócio progressivamente "industrializado", a cargo de grandes frotas e companhias pesqueiras, enquanto que, em contrapartida, os avieiros foram consolidando os contactos que tinham no Ribatejo, quer com a venda do seu pescado fluvial, quer com trabalhos subsidiários, nomeadamente no campo, complementando assim o seu rendimento.(...)
Se, até então, tinham necessariamente de dormir nos seus saveiros, os pescadores poderiam doravante, por fim, repousar em terra firme. Ainda assim, as condições iniciais revelavam-se extremamente duras, pois as primeiras habitações não eram mais que palhotas feitas de ramagens e de caniços, reforçadas com algumas tábuas apanhadas no próprio Tejo. Alguns avieiros, que tinham dois barcos, utilizavam um deles como habitação térrea, virando-o de modo a que a quilha servisse de telhado.
Foi deste modo, muito singelo, que foram surgindo as primeiras comunidades fixas ao longo do Tejo, que nunca passaram muito ao norte da linha Chamusca - Azinhaga pois, a montante da Golegã, as margens do Tejo adquirem uma feição serrana. As praias fluviais tornam-se aí mais pequenas, tal como as propriedades, pelo que há menos tolerância para ceder parcelas para os avieiros se fixarem. Também a agricultura é menos extensiva, exigindo menor mão-de-obra, pelo que os avieiros teriam fracas possibilidades de ali encontrar trabalho complementar ao da pesca.
Em contrapartida, na região da Chamusca e Azinhaga, além do Tejo os avieiros poderiam contar com o rio Almonda para a apanha do peixe, ou mesmo o Paul de Boquilobo, facilmente acessível aquando das inundações.
Os processos de pesca conheceram também uma evolução. Gradualmente, foram sendo abandonadas as grandes redes "varinas", que estavam sujeitas a pesadas taxas de licença, sendo permanente a vigilância dos guarda-rios. Em alternativa, começaram-se a utilizar outras "artes", como as "nassas" (ou "narsas"). Tratavam-se de armadilhas em rede, estruturadas em elegantes formas cónicas por cinco arcos de salgueiro. Estes vão-se estreitando, pelo que o peixe, atraído por um isco colocado no fundo da armadilha, vai passando pelos arcos, tornando-se impossível voltar a sair.(...)
Na zona de Azinhaga, os pescadores apanhavam com frequência, entre outros tipos de peixe, sáveis, bogas, barbos, fataças e enguias, sendo estas últimas capturadas com os "remolhões", constituindo uma das poucas técnicas dos avieiros que não envolvia a utilização de redes.
Quando necessário, os avieiros azinhaguenses empreendiam viagens de alguns dias para outras paragens, em busca de mais pescaria. Embora os mais antigos ainda tivessem velejado até a zona de Abrantes, usualmente estes périplos tinham o sentido descendente, até Vila Franca e Salvaterra de Magos. Por vezes, para se manter o peixe fresco, este depois de apanhado era guardado em viveiros feitos de madeira e de vime, assegurando-se a sua conservação nas águas do rio até ao regresso a Azinhaga.(...)