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No Cretácico Inferior, a Península Ibérica estabeleceu uma ponte entre a Laurásia e o Norte de Gondwana. Por isso é uma área muito importante para estudos paleoecológicos e paleobiogeográficos. Desde que alguns registos de troncos fósseis do Cretácico Inferior passaram a ser conhecidos na Península Ibérica, a descoberta de novos restos fossilíferos correspondentes a este período tem grande importância para inferir e estabelecer interpretações paleoecológicas. Neste trabalho documenta-se pela primeira vez a ocorrência de conífera atribuível ao género Protocupressinoxylon Eckhold. O fóssil sugere que as condições palaeoclimáticas apresentavam marcada sazonalidade e confirma que a flora da Península Ibérica é muito mais pobre do que a da Europa ocidental durante o mesmo intervalo e tem claramente características da Laurásia.
A vegetação do Cretácico da maior parte da Península Ibérica é relativamente mal conhecida, devido aos dados extremamente limitados disponíveis em determinadas áreas apesar dos trabalhos até agora desenvolvidos (e.g. Dieguez et al., 2010). A margem ocidental portuguesa (Bacia Lusitaniana) tem características particulares o que tem permitido a realização de número substancial de estudos paleobotânicos desde finais do século XIX tendo em vista a vertente paleoambiental. Alguns foram encontrados na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal (Boureau, 1957). Neste trabalho documenta-se nova descoberta de troncos fósseis em depósitos de Santa Catarina da Serra (Bacia Lusitaniana), Oeste de Portugal, atribuído a conífera do género Protocupressinoxylon Eckhold.
Neste estudo, foram examinados três troncos fósseis do Cretácico Inferior recolhidos no onshore da margem ocidental portuguesa, em depósitos da Bacia Lusitaniana. Esta bacia desenvolveu-se durante o Mesozóico em relação com a fragmentação da Pangeia e a abertura do Atlântico norte. Correspondia a bacia de rift não vulcânico que evoluiu para um tipo de margem atlântica. A bacia é delimitada a Leste pelo maciço Hespérico e a Oeste pelo horst da Berlenga. Apresenta um alongamento de orientação NNE-SSW para 200 km, 100 km de largura e o seu preenchimento atinge um máximo de 5 km. A pós-separação durante o Aptiano terminal e o início do Albiano tem registo inteiramente continental e corresponde ao Norte do onshore da Formação de Figueira da Foz. Esta fase foi seguida por episódio transgressivo com deposição de carbonatos até o final do Cenomaniano, quando a bacia foi totalmente preenchida. Os espécimes estudados foram recolhidos em sedimentos pertencentes ao Membro de Calvaria, membro inferior da Formação de Figueira da Foz (Dinis, 2001). De acordo com Teixeira et al. (1968), tendo por base correlações regionais e o estudo de macrorrestos vegetais (Teixeira, 1948), esta sequência corresponde ao Aptiano Neocomiano (Fig. 1). Recentemente, tendo por base correlações na bacia e na paleoflora regional, a Formação de Figueira da Foz foi atribuída ao intervalo Aptiano terminal - Cenomaniano, sendo o Membro de Calvaria provavelmente Aptiano terminal ou início do Albiano (Dinis et al., 2008).

Os três troncos fósseis foram recolhidos perto da localidade de Santa Catarina da Serra (39º 41’N; 8º 41’W), foram encontrados em 1989 por habitantes desta localidade durante a realização de escavações (até 5 m de profundidade) para construção de habitações. Embora nenhum dos troncos tenha sido recolhido in-situ pelos autores, a localização original é conhecida. As observações de campo e as referências nos mapas geológicos e topográficos mostram claramente que todos estavam localizados próximo do limite inferior da unidade. Nesta área, existe descontinuidade bem marcada entre a Formação de Figueira da Foz e os calcários do Jurássico Superior (Oxfordiano Superior) conforme indicado no mapa geológico 1:50 000 (Teixeira et al., 1968). Alguns outros fragmentos de troncos silicificados foram encontrados neste Membro da Formação de Figueira da Foz (Dinis, 1999), a cerca de 40 km a Norte, perto de Soure (Quinta de Santa Cruz), embora com processo de fossilização menos avançado. As lâminas preparadas para cada um dos três troncos fossilizados foram observadas no microscópio óptico fotónico Nikon Eclipse E600 acoplado a máquina fotográfica digital Nikon Coolpix 5400 que possibilitou a realização de fotografias. Amostras foram cobertas com ouro durante 60 segundos e observadas num microscópio eletrónico de varrimento Jeol a 20 kV, na Universidad Politécnica de Madrid.
Troncos com xilema secundário picnoxílico, sem canais resiníferos normais ou traumáticos. Traqueídeos com paredes espessas. Raios homogéneos. Poucas pontuações nas paredes tangenciais dos traqueídeos em fiadas unisseriadas, raramente bisseriadas com arranjo oposto. Pontuações dos campos de cruzamento de tipo oculiporo, localmente crupressoides, dispostas numa fiada radial com 1-3 por campo de cruzamento (Fig. 2).

A presença de grandes troncos de coníferas (com cerca de um metro de diâmetro), bem como a ocorrência de outros restos e vegetais fósseis na mesma unidade sugerem floresta bastante desenvolvida, em ambiente com alguma disponibilidade de água, excluindo aridez extrema. Creber (1977) e Creber & Chaloner (1984) propuseram que a presença ou a ausência de anéis de crescimento bem distintos pode representar resposta das árvores ao clima do local de crescimento. Neste caso, a ausência de anéis bem distintos nos três troncos fósseis examinados, com duas ou três fileiras de células, com menor diâmetro radial, indicaria que o paleoclima da região durante o Albiano terminal e início do Aptiano não apresentava sazonalidade. Durante o Cretácico a Península Ibérica passou por significativas alterações paleogeográficas e paleoclimáticas, e a vegetação também sofreu fortes modificações. A reconstrução da vegetação cretácica por Diéguez et al. (2010) aponta para a prevalência de clima subtropical semi-árido. A paisagem seria dominada por savanas secas durante o Jurássico terminal (Titoniano) e início do Cretácico (Berriasiano) sob clima seco com forte sazonalidade (Philippe et al., 2010), com florestas de coníferas xerofíticas que prevaleceram durante o Cretácico Inferior até ao Turoniano. Segundo Diéguez et al. (2010), a vegetação do Cretácico Inferior da Ibéria aponta para temperaturas quentes com ligeira sazonalidade mas, com episódio seco sazonal durante o Barremiano terminal e o Aptiano. O mesmo trabalho aponta já para a existência de angiospérmicas lenhosas durante o Cenomaniano terminal e o Turoniano. Estudos de diversas floras apontam para que o clima na margem ocidental portuguesa (Mendes et al., 2010; Heimhofer et al., 2012) seria quente e húmido durante a maior parte de Barremiano-Aptiano, tornando-se mais quente e seco durante o Albiano, condições que prevaleceram durante a maior parte do Cretácico Superior. Ao estudar a palinologia de depósitos continentais localizados a Sul da Bacia Lusitaniana, Heimhofer et al. (2012) deduziram existir floresta dominada por cupressáceas e taxodiáceas em combinação com plantas higrófilas. Por outro lado, a presença quase exclusiva de caulinite entre as argilas, também aponta para condições húmidas. A Formação de Figueira da Foz contém depósitos de argilas dominados por caulinite, paleossolos hidromórficos e carvão, embora não abundante. Esta combinação sugere condições ambientais quentes e, pelo menos sazonalmente, clima húmido durante a Barremiano e início do Albiano, surgindo mais tarde no Albiano condições mais quentes e secas (Mendes et al., 2011). Os troncos silicificados aqui estudados foram provisoriamente atribuídos ao género Protocupressinoxylon Eckhold. Tendo em conta que as três amostras examinadas têm anéis de crescimento indistintos, o que pode ser interpretado como ausência de sazonalidade bem marcada, embora não exclua a possibilidade de alguma sazonalidade. Pode concluir-se que os troncos fósseis foram depositados sob clima predominantemente quente e húmido. Os nossos resultados suportam as conclusões de Peralta-Medina & Falcon-Lang (2012), de acordo com as quais as cupressáceas preferem ecótono entre os climas temperados húmidos tropicais e áridos. Os resultados obtidos com este novo registo fóssil reforçam a ideia de que o contraste climático entre o Norte de Gondwana e a Laurásia era a força motriz por detrás das relações biogeográficas na zona ocidental do Tethys durante o Cretácico Inferior. A Península Ibérica pode ser considerada como ponte entre o Norte de Gondwana e a Laurásia, actuando como transição e zona transiente separando duas regiões biogeográficas claramente diferenciadas.
FONTE DE INFORMAÇÃO:
www.lneg.pt/wp-content/uploads/2020/03/99_1768_ART_CG14_ESPECIAL_I.pdf
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