O nevoeiro pairava baixo sobre o IC 20, a estrada que serpenteava entre as colinas verdejantes do Oeste português. Era uma noite fria de outono, e o silêncio da estrada era apenas quebrado pelo ronco distante de um motor. Mariana, uma jovem jornalista de Torres Vedras, conduzia o seu velho Fiat Panda, com o rádio sintonizado numa estação local que tocava fado. A luz dos faróis mal conseguia penetrar a bruma densa, e ela sentia um arrepio que não era só do frio.
Estava de regresso a casa após uma entrevista em Bombarral, onde investigava rumores sobre uma empresa vinícola que, segundo as más-línguas, escondia mais do que garrafas nas suas caves. Mas a sua mente não estava no artigo. Algo naquela estrada, naquela noite, parecia... errado. Talvez fosse o nevoeiro, ou a forma como as luzes da estrada pareciam tremeluzir, como se hesitassem em iluminar o caminho.
De repente, os faróis captaram algo à beira da estrada. Uma figura. Humana, mas estranhamente imóvel, vestida com um casaco escuro e um chapéu de aba larga que escondia o rosto. Mariana abrandou, o coração a acelerar. "Quem raio está aqui a estas horas?" murmurou para si mesma. A figura não se mexeu, mas, quando Mariana passou, jurou ter visto os olhos brilharem sob a aba do chapéu — um brilho que não era humano.
Decidiu não parar. "Provavelmente um agricultor perdido," tentou convencer-se, mas o seu instinto de jornalista gritava que havia ali uma história. Mais à frente, uma placa enferrujada indicava uma saída para uma vila chamada Montejunto. Mariana não se lembrava de tal lugar, apesar de conhecer bem a região. Curiosidade e medo lutavam dentro dela, mas a curiosidade venceu. Virou o carro para a saída.
A estrada secundária era estreita, ladeada por pinheiros altos que pareciam engolir a luz. O rádio começou a chiar, o fado substituído por um ruído estático que parecia formar palavras indistintas. Mariana desligou-o, irritada. Foi então que o viu: um carro abandonado no meio da estrada. Um velho Citroën, com a porta do condutor aberta e o motor ainda a trabalhar. Parou o seu Panda e saiu, hesitante. "Olá? Está alguém aí?" chamou, mas apenas o vento respondeu.
Ao aproximar-se, notou algo estranho no Citroën. O banco do condutor estava coberto de cinzas, como se algo — ou alguém — tivesse sido incinerado ali mesmo. Não havia sinais de luta, nem marcas de pneus. Apenas as cinzas e um leve cheiro a queimado no ar. Mariana sentiu o estômago revirar-se. Pegou no telemóvel para chamar a GNR, mas não havia sinal. Claro, pensou, amargurada. Estava no meio de nada.
Foi então que ouviu um som atrás de si — um estalido, como um ramo a partir-se. Virou-se, mas o nevoeiro engolira tudo. "Quem está aí?" gritou, a voz trémula. Nada. Apenas o silêncio, pesado e opressivo. Decidiu voltar para o carro, mas, ao virar-se, algo brilhou no chão, meio escondido pela erva. Era um medalhão de prata, gravado com um símbolo estranho, uma espécie de estrela de oito pontas dentro de um círculo. Mariana guardou-o no bolso, com as mãos a tremer.
De volta ao Panda, tentou ligar o motor, mas ele recusava-se a pegar. O pânico começou a instalar-se. Foi então que o viu novamente — o homem de chapéu, agora mais perto, parado no meio da estrada. Não se mexia, mas Mariana sentiu que ele a observava. O brilho nos olhos era inconfundível, agora mais intenso, quase sobrenatural. Sem pensar, trancou as portas e tentou o motor novamente. Nada.
O homem começou a caminhar na sua direção, lento, deliberado. Cada passo ecoava no silêncio da noite. Mariana agarrou o medalhão no bolso, como se fosse um talismã. "O que queres de mim?" gritou, mais para se convencer de que ainda tinha coragem. A figura parou a poucos metros do carro. Lentamente, levantou uma mão e apontou para o medalhão no bolso dela. Uma voz, grave e quase inumana, ecoou na sua mente: "Devolve-o."
Mariana não sabia como, mas sentia que aquele objeto era a chave para tudo. Com um impulso de adrenalina, abriu a porta do carro e atirou o medalhão para a estrada. A figura inclinou-se para o apanhar, e, nesse momento, o nevoeiro pareceu dissipar-se ligeiramente. O motor do Panda rugiu de repente, como se despertasse de um transe. Mariana não hesitou. Pisou o acelerador e arrancou, deixando a figura e o Citroën para trás.
Quando chegou a casa, ainda tremia. O artigo sobre a vinícola nunca foi terminado. Mariana tentou pesquisar o símbolo do medalhão, mas não encontrou nada. A vila de Montejunto não aparecia em nenhum mapa. E, nas semanas seguintes, as notícias locais falaram de outros condutores que relataram avistamentos estranhos no IC 20 — uma figura de chapéu, olhos brilhantes, e carros que paravam sem explicação.
Mariana nunca mais passou por aquela estrada à noite. Mas, nas noites de nevoeiro, quando o vento soprava do Oeste, jurava ouvir uma voz distante a sussurrar: "Devolve-o."