A Concha de São Martinho faz lembrar uma bacia de plástico que se rompeu num dos lados. Olhando para ela, o seu semi-círculo quase perfeito é impactante pela sua simetria. Durante milhões de anos, esta estrutura esteve ali, aparentemente estável. Mas por baixo, um busílis - havia sal!
Evaporitos do complexo Dagorda, dúcteis e menos densos, começaram a ascender. Não por vontade própria, mas porque a física não negocia tal como a bolha de ar que ascende, inevitavelmente, pela coluna de água até irromper à superfície.
O resultado?
Arqueamento das camadas jurássicas que se acumularam por cima, fraturação e criação de zonas de fraqueza. A dada altura outro inevitável - a bacia abriu num dos lados. Uma fratura estreita que se revelou uma oportunidade geomorfológica onde o martelo das ondas atua com mais pungência:
O Atlântico, oportunista, entrou. Primeiro lentamente. Depois decididamente, com a subida eustática pós-glaciar (~120 m desde o Último Máximo Glaciar). A bacia encheu-se.
E ficou assim. Redonda. Aberta de um lado. Com água calma lá dentro e energia selvagem lá fora.
O canal estreito funciona como um argumento catalisador: filtra a violência, dissipa a energia e permite a deposição. A Concha é uma bacia rachada invadida pelo mar que encontrou o seu ponto de equilíbrio ao manter o compromisso dinâmico entre erosão e deposição.
Para o Geocacher que a observa daqui do miradouro, esperemos que agora não seja apenas paisagem!
Tarefas de LOG
Observa atentamente todo o perímetro da bacia que consegues abarcar e procura argumentos para responder às três questões:
P1: A direção de inclinação (mergulho) é dada pelo sentido para onde o plano desce geometricamente! Se desceres a duna que trepa as camadas verticalizadas que observas ao fundo, qual a direção da inclinação dessa camada?
P2. Porque razão a área central evolui para uma depressão, apesar de anteriormente ter sido uma eventual estrutura em domo?
P3: Porque é que a invasão marinha ocorre preferencialmente na zona que observas e não nas áreas adjacentes?
O teu log será aceite mediante o envio das respostas para o meu mail. Um upload de uma foto no teu found log a documentar o local onde efetuaste a observação será muito bem acolhida.
Contexto Geológico local
A ilustração aos quadradinhos replicada abaixo é um pouco hiperbólica e extravagante. Tem, contudo, subjacente o objetivo didático de tornar a lição abstrata, simples e muito focada nos aspetos fundamentais, tal como é recomendado: comprimir mais de 200 milhões de anos ilustrados em quatro quadradinhos é um grande desafio, e estancá-los em períodos geológicos definidos é ainda mais ousado, mas aqui segue:
1. Instalação da sequência estratigráfica (≈230–152 Ma)
No Triássico Superior (≈230–201 Ma) depositaram-se sedimentos evaporíticos — sal, gesso e margas — que constituem a Formação de Dagorda (rosa).
Posteriormente, no Jurássico Superior (Oxfordiano - Kimmeridgiano, ≈161–152 Ma), instalaram-se sobre estes materiais os calcários marinhos da Formação de Montejunto (castanho).
Forma-se assim uma estrutura estratificada com base plástica e menos densa (evaporitos) e cobertura rígida e competente (calcários)
2. Início do diapirismo e deformação (Cretácico Superior–Miocénico)
Durante a compressão associada à Orogenia Alpina (≈100–20 Ma), os evaporitos triássicos começaram a ascender devido à sua menor densidade e comportamento dúctil.
A ascensão da coluna salina provocou o abaulamento dos calcários jurássicos, a fracturação radial da cobertura e a formação de um domo estrutural. Inicia-se a formação do diapiro.
3. Erosão diferencial e exumação do núcleo diapírico (Miocénico Superior 10 - 12 m.a.–Pliocénico)
Com a continuação da erosão, os calcários elevados da Formação de Montejunto foram progressivamente removidos.
Os materiais margosos e evaporíticos da Formação de Dagorda, menos resistentes, ficaram expostos à superfície tendo sido igualmente removidos. Desenvolve-se uma depressão tifónica em forma de concha, característica de estruturas diapíricas evoluídas.
4 — “Afogamento” marinho e configuração atual (Pliocénico ~3.6 m.a. - Atualidade)
Durante este período as oscilações glacio-eustáticas culminaram no Holocénico com a subida do nível médio do mar. O mar invadiu a depressão estrutural previamente escavada, originando a morfologia costeira atual.
A conclusão que retiramos é que a atual morfologia desta zona costeira que atravessa mais de 200 m.a. de história geológica, deve-se à conjugação de movimentos tectónicos, estruturas diapiricas, erosão diferencial e aumento do nível do mar que, não sendo variáveis estáticas, mas dinâmicas, decerto continuarão a configurar a paisagem. Por enquanto e para muitas gerações futuras, será este o encanto que nos oferece!
Obras consultadas para a execução desta Earthcache
. Geologia de Portugal, Volume II – Geologia Meso-cenozóica de Portugal III.3. A Bacia Lusitaniana: Estratigrafia, Paleogeografia e Tectónica, Kullberg et al
The Shell of São Martinho resembles a plastic bowl cracked open on one side. Its almost perfect semicircle is striking in its symmetry. For millions of years, this structure stood there, apparently stable. But beneath it, there was a hidden complication — salt.
Evaporites from the Dagorda Formation, ductile and less dense, began to rise. Not by choice, but because physics does not negotiate — much like an air bubble inevitably ascending through a column of water until it bursts at the surface.
The result?
Arching of the Jurassic layers that had accumulated above, fracturing, and the creation of structural weaknesses. Eventually, another inevitability — the basin opened on one side. A narrow fracture that became a geomorphological opportunity where the hammer of the waves strikes with greater force.
The Atlantic, opportunistic, entered. First slowly. Then decisively, with post-glacial eustatic rise (approximately 120 m since the Last Glacial Maximum).The basin filled.
And it remained this way. Round. Open on one side. Calm waters within, wild energy outside.
The narrow channel functions as a catalytic argument: it filters violence, dissipates energy, and allows sediment deposition. The Shell is a cracked basin invaded by the sea that found its equilibrium by maintaining a dynamic compromise between erosion and deposition.
For the Geocacher observing from this viewpoint, we hope it is now more than just scenery.
LOG Tasks
Carefully observe the entire perimeter of the basin visible from your position and use geological reasoning to answer the following questions:
Q1: The dip direction is given by the direction toward which the plane geometrically descends. If you walk down the climbing dune that ascends the verticalized strata visible in the background, what is the dip direction of that layer?
Q2: Why did the central area evolve into a depression, even though it may previously have formed a domal structure?
Q3: Why did marine invasion occur preferentially in the area you observe rather than in the adjacent higher terrain?
Your log will be accepted after sending your answers to my email. A photo uploaded in your “Found” log documenting the location from which you made your observations is most welcome.
Local Geological Context
The four-panel illustration below is somewhat exaggerated and stylistically bold. Its purpose, however, is purely didactic: to compress more than 200 million years into four schematic stages. This is an ambitious simplification, but here it is:

1. Installation of the stratigraphic sequence (≈230–152 Ma)
During the Late Triassic (≈230–201 Ma), evaporitic sediments — salt, gypsum and marls — were deposited, forming the Dagorda Formation (pink).
Later, during the Late Jurassic (Oxfordian - Kimmeridgian, ≈157–152 Ma), marine limestones of the Montejunto Formation (brown) were deposited above them.
A layered structure was thus formed, with a plastic, less dense base (evaporites) and a rigid, competent cover (limestones).
2. Onset of diapirism and deformation (Late Cretaceous–Miocene)
During compression associated with the Alpine Orogeny (≈100–20 Ma), the Triassic evaporites began to rise due to their lower density and ductile behavior.
The ascending salt column caused arching of the Jurassic limestones, radial fracturing of the overlying cover, and the development of a structural dome. Diapir formation began.
3. Differential erosion and exposure of the diapiric core (Miocene 10 - 12 m.a.–Plioccene)
With continued erosion, the uplifted Montejunto limestones were progressively removed.
The weaker marls and evaporites of the Dagorda Formation became exposed at the surface.
A shell-shaped diapiric depression developed — characteristic of mature diapiric structures.
4. Marine “Drowning” and Present Configuration (Pliocene ~3.6 m.a. - Present
During the Quaternary, glacio-eustatic oscillations culminated in Holocene sea-level rise. The sea invaded the previously excavated structural depression, producing the present coastal morphology.
In summary, the current landscape — representing more than 200 million years of geological history — results from the combined action of tectonic movements, diapiric structures, differential erosion, and sea-level rise. These are not static variables but dynamic processes that will undoubtedly continue shaping the landscape.
For now — and for many generations to come — this is the remarkable natural heritage it offers us.
Bibliographic References
. Kullberg et al. Geology of Portugal, Volume II – Meso-Cenozoic Geology of Portugal. The Lusitanian Basin: Stratigraphy, Paleogeography and Tectonics.
. Zêzere, J.L. Geomorphology of the Caldas da Rainha Region.