Couto Mineiro do Cabo Mondego: Geologia, Indústria e Catástrofes Naturais na Serra da Boa Viagem

O couto mineiro do Cabo Mondego, inserido na Serra da Boa Viagem, constitui um dos mais antigos e relevantes complexos mineiros de carvão em Portugal, com atividade documentada desde meados do século XVIII. A exploração iniciou-se por volta de 1750, sendo posteriormente impulsionada por políticas pombalinas a partir de 1773, num contexto de proto-industrialização do país.
Ao longo de mais de dois séculos de atividade, até ao seu encerramento definitivo em 1967, este couto mineiro desenvolveu uma extensa rede de poços e galerias — como os poços “Santo António”, “Esperança” ou “Fontaínhas” — e chegou a dispor de ligações ferroviárias próprias (linha Decauville) para transporte de carvão até à Figueira da Foz. Apesar da qualidade relativamente modesta das lignites exploradas, a atividade mineira foi fundamental para o abastecimento das indústrias locais, nomeadamente fornos de cal hidráulica, cimento, cerâmica e vidro, assumindo particular importância em períodos de escassez de carvão importado, como durante as duas guerras mundiais.
Do ponto de vista geológico, o couto mineiro do Cabo Mondego insere-se na fachada atlântica da Serra da Boa Viagem, um maciço calcário pertencente ao subdomínio setentrional da Orla Meso-Cenozóica Ocidental portuguesa. Este relevo, moderadamente acidentado e alongado na direção nascente-poente, desenvolve-se sobre uma estrutura monoclinal basculada para sul, formada por unidades sedimentares marinhas do Jurássico Inferior e Médio da Bacia Lusitânica. Sobre estas assentam formações mais recentes, incluindo depósitos lagunares do Oxfordiano e séries fluvio-deltaicas do Kimmeridgiano-Titoniano e do Cretácico Inferior.
A exploração mineira incidiu sobretudo sobre níveis de lignite intercalados em calcários lacustres do Oxfordiano Superior, ainda hoje visíveis nas arribas da enseada da Pedra da Nau, nas proximidades das antigas instalações mineiras. Em toda a área destacam-se numerosos estratos de calcário, calcário margoso e marga, inclinados para sul, frequentemente cobertos por depósitos de vertente plistocénicos e holocénicos. Estes depósitos, espessos, heterogéneos e pouco coerentes, apresentam um comportamento hidrológico desfavorável, sendo particularmente suscetíveis à infiltração de água, erosão e instabilidade.
Estas características geológicas desempenham um papel determinante na dinâmica geomorfológica da serra. Quando saturados, os níveis margosos e os depósitos de vertente perdem resistência, tornando-se propícios a movimentos de massa, como deslizamentos e ravinamentos. Esta vulnerabilidade foi agravada pela atividade humana, que alterou significativamente o equilíbrio natural das encostas através da escavação de galerias, da criação de taludes artificiais e da acumulação de escombreiras.
Para mitigar estes riscos, foram implementadas diversas obras de estabilização ao longo do tempo, destacando-se a construção de um extenso muro de suporte em alvenaria, com cerca de 80 metros de comprimento e 9 metros de altura. Este muro protegia as entradas das principais galerias — como a Galeria Nova Mondego–Santa Bárbara e a Galeria Santo António — bem como infraestruturas essenciais, incluindo a central elétrica e a linha Decauville que assegurava o transporte de materiais. No entanto, já nas décadas anteriores a 1941 eram visíveis sinais de instabilidade, como fraturas no muro, deformações nas galerias e exsurgências de água nos taludes.
Essa fragilidade ficou dramaticamente evidente durante o ciclone de 15 de fevereiro de 1941, um dos mais intensos eventos meteorológicos do século XX na Europa. Resultante de uma depressão formada no Atlântico, este fenómeno atingiu a costa portuguesa com ventos que ultrapassaram os 130 km/h e provocou uma forte agitação marítima, acompanhada por uma significativa sobrelevação do nível do mar (storm surge). Na região da Figueira da Foz, registaram-se inundações, naufrágios e danos severos em infraestruturas costeiras, tendo o mar chegado a atingir zonas do complexo mineiro. O ciclone provocou ainda cortes generalizados de energia elétrica, afetando diretamente o funcionamento da mina.
Contudo, os efeitos mais marcantes resultaram da conjugação deste evento com a precipitação intensa e prolongada das semanas anteriores. A infiltração contínua de água nos depósitos de vertente e nas formações margosas levou à sua progressiva desestruturação, aumentando a pressão intersticial e reduzindo a coesão dos materiais.
Foi neste contexto que, a 24 de fevereiro de 1941, ocorreu um grande deslizamento rotacional na encosta sobranceira às entradas da mina. O movimento envolveu um volume significativo de materiais, arrastando consigo o muro de suporte e destruindo grande parte das infraestruturas mineiras, incluindo as entradas das galerias, a central elétrica, instalações de apoio e troços da linha ferroviária. O colapso terá começado durante a madrugada e consumado nas primeiras horas da manhã, sendo descrito na época como uma grande fratura com cerca de 90 metros de comprimento e 10 metros de altura.
Apesar da magnitude do desastre, não houve vítimas mortais, uma vez que os trabalhadores foram impedidos de entrar na mina pouco antes do colapso, evitando uma tragédia humana de grandes proporções. Ainda assim, os prejuízos materiais foram elevados e levaram à paralisação temporária da exploração.
A análise do acontecimento evidenciou a importância da conjugação de vários fatores: a saturação dos solos, a drenagem deficiente, a carga e vibração associadas às infraestruturas industriais e ferroviárias, e a progressiva degradação das estruturas de suporte. Este episódio constitui um dos primeiros casos documentados em Portugal onde se procurou compreender, ainda que de forma incipiente, os mecanismos de instabilidade de vertentes em contexto mineiro, contribuindo para o desenvolvimento da geotecnia aplicada no país.
Atualmente, o couto mineiro do Cabo Mondego permanece como um notável testemunho da interligação entre geologia, atividade humana e fenómenos naturais extremos. Mais do que um antigo espaço industrial, este local representa um verdadeiro arquivo geológico com milhões de anos, onde se cruzam a história da exploração de recursos, a evolução científica da geologia e os riscos associados à ocupação humana de territórios naturalmente instáveis.
Ao percorrer este local, não estás apenas a visitar uma antiga mina — estás a atravessar um território onde o tempo geológico e a história humana se encontram, por vezes de forma dramática.
