Na noite quente de Julho, a nova ponte pedonal que atravessa a Avenida Marginal e a Linha de Cascais brilhava como uma fita suspensa entre Algés e o Passeio Marítimo. Os últimos concertos já tinham terminado há horas, mas o ar ainda vibrava com o eco distante de baixos.
Miguel atravessava a ponte sozinho, os passos ressoando no tabuleiro metálico. A meio da travessia, parou bruscamente. No centro exato da ponte, iluminada por um dos focos brancos, estava uma única ténis branca, imaculada, como se alguém a tivesse descalçado ali de propósito.
Aproximou-se devagar. Dentro da ténis via-se um bilhete dobrado, escrito à mão com letra nervosa:
“Se estás a ler isto, não olhes para baixo.”
Miguel sentiu o estômago contrair. Contra toda a razão, inclinou-se sobre o parapeito e olhou para baixo.
A Avenida Marginal estendia-se escura lá em baixo, com os carros passando raros. A linha de comboios brilhava fria sob as luzes laranja. E ali, exatamente por baixo dele, imóvel entre os carris, estava uma figura de capuz escuro, de cabeça erguida, a olhar diretamente para cima. Faltava-lhe a ténis no pé esquerdo.
Miguel recuou de repente, o coração a martelar. Quando olhou outra vez para o chão da ponte, a ténis continuava lá.
Mas agora havia um segundo bilhete, pousado ao lado da primeira, que ele tinha a certeza absoluta de que não estava ali um segundo antes.
Escrito na mesma letra apressada:
“Demasiado tarde.”
A ponte ficou em silêncio absoluto, só se ouvindo o vento a passar por entre os cabos de aço.
Miguel nunca chegou ao outro lado.