Pereiro a terra do meu pai - As amendoeiras
Pereiro, a localidade mais oriental de Tabuaço, confronta diretamente com terras de S. João da Pesqueira, concelho ao qual chegou a pertencer nos alvores da nacionalidade, passando a ser terra do Couto do Mosteiro de São Pedro das Águias durante vários séculos e, desde 1895, é freguesia do concelho de Tabuaço.
Bem situada, ao longo de um platô a nascente do Monte dos Santos Mártires, eminente a Espinhosa, e que muitos autores dizem ter sido um local apropriado ao refúgio dos povos da Pré-história, a povoação do Pereiro oferece aos seus visitantes um dos melhores miradouros sobre o vale do Távora, podendo observar-se dela, de uma forma bastante completa e inebriante, a Serra de Chavães. A relativa distância existente permite mesmo que os seus habitantes tenham uma visão quase integral daquela serra que quase consegue ultrapassar os mil metros de altitude. A disposição urbanística da povoação forma um grande T, encontrando-se no entroncamento dos três braços a Igreja matriz e o cemitério.
Em termos toponímicos, o nome da terra tanto poderá vir da árvore de fruto como poderá significar um local pedregoso, tornando-se, pois, difícil averiguar da real origem do topónimo. Não obstante, a povoação encontra-se implantada em local rodeado por grandes massas graníticas, o que nos poderá fazer remeter a sua origem toponímica para as condições topográficas do lugar.
Em termos históricos, sabe-se que o Conde D. Henrique e sua mulher D. Teresa terão doado em 1103 várias “hereditas” ao Mosteiro de São Pedro das Águias, aumentando o couto já existente. O Pereiro terá ficado então dentro dessa herdade, sujeito à jurisdição dos abades do célebre mosteiro, cuja sede era em Paradela.
No entanto, por carta de D. Dinis de 1291, e após inquirição da situação da «aldeia» do Pereiro e arredores do termo do couto, ficou provado que, apesar de esta pertencer ao julgado de São João da Pesqueira, constituía território coutado, sendo-lhe respeitados a situação e privilégios, o que já não sucedeu com os lugares de Espinhosa e Paço, a sul do Pereiro. Consta que o Pereiro terá sido isento do pagamento da «parada», ao contrário dos casais de Balsa e de Desejosa.
Já do séc. XV, chega-nos a notícia de que o mosteiro exercia a jurisdição temporal e espiritual sobre Pereiro, do qual recebia foros de cera e carneiros por aforar «sessegas» (terrenos para edificações).
Posteriormente, em 1 de fevereiro de 1514, o Pereiro enquanto lugar do Concelho de Castanheiro, beneficiou do foral que a este foi outorgado pelo Rei D. Manuel I. A povoação do “Pireiro”, tal como também aparece redigido no aludido foral, era constituída, então, por doze casais, pagando cada um, ao Mosteiro, de pão terçado, isto é, de trigo, centeio e cevada, dezasseis alqueires da medida nova, que equivalem a dezasseis teigas menos uma quarta, cada uma. Cada casal pagava ainda vinte quartas de vinho, equivalente cada quarta a um alqueire menos um quartilho. Mais pagava cada casal duas galinhas. Pagavam, também anualmente, um gorazil ou quarenta reais por ele. Cada casal era ainda obrigado a pagar seis geiras anuais.
Entretanto, segundo o Cadastro da População do Reino, de 1527, o lugar do “pereiro”, dentro do termo do concelho de Castanheiro, já possuía 13 fogos. No que tange à paroquialidade do Castanheiro e, consequentemente, do Pereiro (que ainda não estaria criada), os serviços religiosos andaram muito descorados no início do séc. XVI, tal como o verificaram em 11 de abril de 1536 os visitadores da Ordem de Cister, no Capítulo de Visitação feita ao Mosteiro de São Pedro das Águias. Era, então, comendatário do mosteiro das Águias, em tempo da sua visitação, o Bispo D. Brás Neto. Este foi admoestado para que mandasse prover quatro capelães para as quatro capelas e anexas que o dito mosteiro tinha, a saber no lugar de “heruedosa” que rendia trinta mil reais para o dito mosteiro, no lugar de “valença” que rendia oitenta mil reais, no “castanheiro” que rendia sessenta mil reais (nele se contando o Pereiro) e no lugar de “spinhosa” que rendia vinte e cinco mil reais. Mais foi mandado que olhasse e provesse sobre as fábricas e ornamentos, cálices e vestimentas que pertenciam às ditas igrejas e anexas e demais necessidades que nelas havia, tal como já havia sido ordenado na visitação anterior, ocorrida em 1498, e que estaria por cumprir.
Em 1537, o Castanheiro e o termo do seu concelho, no qual se incluía a aldeia de Pereiro, pertenciam em termos de direitos reais a Luís Alvares de Távora. Em termos eclesiásticos terá sido um século difícil para as paróquias do isento de S. Pedro das Águias, dado que muito provavelmente as ordens dos capítulos de visitação não terão sido cumpridas, pois, por volta de 1542, D. João III chegou a ordenar o sequestro das rendas do Mosteiro de S. Pedro das Águias, pertencente ao bispo de Viseu.

Toda essa instabilidade terá motivado os moradores do Pereiro a erigirem, nos inícios do séc. XVII, a sua paróquia de S. Sebastião do Pereiro, isento do couto de São Pedro das Águias. Tal foi conseguido “a rogo e muita insistência dos habitantes” que se comprometeram, com o mosteiro, a edificar e custear a igreja (com a sacristia) e a sustentar o pároco que o abade de S. Pedro das Águias ali apresentasse. Será deste período o retábulo primitivo do altar-mor, bem como as imagens de vulto de Santo António, de Nossa Senhora da Conceição e de São Sebastião, seu padroeiro.
Em 1708 há referência à freguesia do lugar do “Pereyro”, com igreja paroquial dedicada a S. Sebastião, que contava 50 fogos e se encontrava no termo da vila e concelho de “Castanheira”. Mais era referido que o pároco do Castanheiro era cura, da apresentação do abade de S. Pedro das Águias, o “qual visita esta Villa, & seu termo no temporal, & espiritual”, devendo suceder o mesmo com a paróquia de São Sebastião do Pereiro. Por esta época a vila e concelho do Castanheiro pertenciam aos Marqueses de Távora, e, em termo económicos, era “fértil de pão, vinho, azeite, & sumagre”. Havia, ainda, memória do foral que D. Manuel I dera ao Castanheiro e do qual o Pereiro beneficiou.
Em 6 de novembro de 1836, com a extinção do concelho de Castanheiro, passou a freguesia do concelho e julgado de Trevões, até que com a supressão deste último, em 24 de outubro de 1855, passou para o concelho de S. João da Pesqueira. Finalmente, em 7 de setembro de 1895, foi transferida para o concelho de Tabuaço, juntamente com Valença do Douro e Desejosa.
Quem visitar a sua igreja matriz, recuperada, poderá apreciar um interessante e singelo imóvel com elementos arquitetónicos e artísticos que se estendem de inícios do séc. XVII, altura em que a paróquia foi fundada, até finais do séc. XIX, época da ampliação do templo. Tendo como padroeiro S. Sebastião, na Igreja do Pereiro honra-se, também, Nossa Senhora Auxiliadora, com festa em fevereiro, e objeto de grande veneração. Aliás, no interior do seu templo existem inúmeras imagens de Santa Maria, cada uma com seu orago, podendo ainda ser referida a excecional imagem de São João Baptista, cuja qualidade de execução ultrapassa os ditames regionais. É ainda possível visitar a setecentista capela de Santa Bárbara, protetora das colheitas, o Nicho do Senhor de Matosinhos ou o Cruzeiro do Senhor dos Aflitos.
Encontrando-se integrado na Região Demarcada do Douro, o Pereiro é uma freguesia onde ainda se mantém relativamente forte o espírito comunitário, exemplificado pelo forno comunitário. Outro monumento importante do Pereiro, embora partilhado com Távora, é a antiquíssima Ponte do Fumo que atravessa o rio Távora e cujas origens remontarão ao período romano, apesar de actualmente conservar uma feição medieval, devido ao cavalete pronunciado. De resto, sempre se diga que este imóvel foi durante séculos a principal passagem sobre o Távora do Pereiro ao Mosteiro de São Pedro das Águias e a Távora, e, já no séc. XX, o acesso privilegiado e mais rápido para se chegar à vila de Tabuaço.