Os peixes são os verdadeiros donos do planeta Terra, pelo menos no que diz respeito ao espaço ocupado, pois enquanto nós nos esprememos em continentes e ilhas, eles dominam mais de setenta por cento da superfície do globo, habitando desde as fossas oceânicas mais escuras e profundas até os riachos cristalinos no topo de montanhas isoladas. Mais do que simples criaturas aquáticas, os peixes representam uma obra-prima da evolução biológica e compreender a sua existência é mergulhar na própria história da vida no nosso planeta. Para a ciência moderna, especificamente para a cladística, a palavra peixe não define um grupo taxonômico único e natural como as aves ou os mamíferos, sendo na verdade uma definição de conveniência usada para descrever qualquer vertebrado aquático, que não seja um tetrápode, que possua brânquias durante toda a vida e cujos membros tenham a forma de nadadeiras. Se fôssemos seguir a árvore genealógica à risca, nós, seres humanos, somos parentes mais próximos de um peixe que vive no fundo do mar com pulmões primitivos, o celacanto, do que esse celacanto é de um tubarão, mostrando como a natureza é fascinante justamente por essas rasteiras que prega na nossa intuição. Existem mais de trinta e quatro mil espécies conhecidas de peixes, um número que supera a soma de todos os mamíferos, aves, répteis e anfíbios juntos, e eles são divididos em três grandes superclasses vivas. A primeira é a dos peixes ágnatos, que são os vertebrados vivos mais primitivos, não possuem mandíbulas móveis nem escamas e têm como exemplos as lampreias, que são parasitas que se fixam em outros peixes usando uma boca circular cheia de dentes para sugar fluidos vitais, e as feiticeiras, criaturas necrófagas das profundezas que produzem uma quantidade absurda de muco pegajoso como mecanismo de defesa. A segunda classe é a dos peixes condrictes, onde entram os reis dos oceanos como tubarões, raias e quimeras, cujo esqueleto não é feito de osso, mas sim de cartilagem, o que os torna incrivelmente leves e flexíveis, obrigando-os a nadar constantemente para não afundar e para forçar a água a passar pelas suas fendas branquiais, já que não possuem uma bexiga natatória. A terceira classe é a dos peixes osteíctes, que representam cerca de noventa e cinco por cento das espécies e possuem esqueleto ósseo calcificado, escamas sobrepostas e uma bexiga natatória que funciona como o colete equilibrador de um mergulhador, permitindo que eles fiquem parados na água sem afundar nem flutuar, dividindo-se entre os actinopterígios com nadadeiras raiadas como o atum e a sardinha, e os sarcopterígios com nadadeiras lobadas e carnosas como o celacanto, grupo do qual evoluíram os primeiros anfíbios que colonizaram a terra firme. A evolução moldou os peixes para serem ferramentas perfeitas de locomoção e sobrevivência na água e a sua respiração funciona de forma fascinante, pois enquanto nós retiramos o oxigênio do ar, os peixes extraem o oxigênio dissolvido na água através das brânquias, onde a água entra pela boca, passa pelos filamentos branquiais altamente vascularizados e sai pelas fendas laterais em um mecanismo de contracorrente onde o sangue flui na direção oposta à da água para garantir a máxima absorção. Além disso, eles contam com o sistema da linha lateral, que é um órgão sensorial microscópico que corre ao longo dos flancos do peixe e detecta variações de pressão, correntes e movimentos de predadores ou presas ao redor, permitindo que eles vejam no escuro absoluto através das vibrações da água. Quanto à temperatura, a maioria dos peixes é ectotérmica e varia de acordo com a temperatura da água, mas grandes predadores como o atum-rabilho e o tubarão-branco possuem sistemas de troca de calor especializados que mantêm os seus músculos e olhos mais quentes que o oceano ao redor, permitindo velocidades de ataque impressionantes em águas gélidas. A pressão evolutiva fez com que os peixes desenvolvessem adaptações extremas que parecem saídas de livros de ficção científica, como os peixes do abismo que usam a bioluminescência para atrair presas em direção à sua boca cheia de dentes agulhados na escuridão total, ou as incríveis técnicas de camuflagem do peixe-pedra e do linguado, que nasce com a forma de um peixe normal e depois tem um dos seus olhos migrado para o outro lado da cabeça para poder viver deitado de lado na areia do fundo do mar. Outro fenômeno impressionante são as migrações épicas do salmão, que nasce em rios de água doce, viaja milhares de quilômetros até ao oceano para crescer e, anos mais tarde, encontra o caminho de volta exatamente para o mesmo riacho onde nasceu para se reproduzir e morrer, guiando-se pelo campo magnético da Terra e pelo olfato da assinatura química da água. Os peixes não são apenas fascinantes, eles são pilares ecológicos e económicos cruciais para o equilíbrio do mundo, atuando no controle das populações de plâncton e servindo de alimento para aves marinhas, mamíferos e para a humanidade, que depende do peixe como a sua principal fonte de proteína animal de alta qualidade rica em ômega três. Hoje, o mundo dos peixes enfrenta ameaças sem precedentes como a sobrepesca industrial, a poluição por plásticos que introduz microplásticos na cadeia alimentar e as alterações climáticas que destroem os recifes de coral que servem de berçário para um quarto de toda a vida marinha, tornando a proteção dessas criaturas uma questão de sobrevivência mútua para garantir que elas continuem a nadar e a maravilhar o nosso planeta por mais centenas de milhões de anos.
A cache
N 40° 27.ABC′ W 8° 48.DEF′
Para decifrar o enigma está tudo na descrição.
Não há nada nas coordenadas publicadas