Ponte de Quimboio

O Guardião da Ponte de Quimboio
O sol de fim de tarde pintava o céu com tons de brasa e ouro quando o velho Ti Antunes se sentou no seu banco de madeira customizado, mesmo à entrada da velha estrutura de ferro. Para os engenheiros e para os mapas oficiais da vila, aquilo era uma "ponte ferroviária". Mas para as gentes da terra, criadas ao som do metal a ranger, aquele lugar icónico seria para sempre a "ponte do quimboio".
A infância de Antunes tinha sido desenhada entre aqueles pilares cinzentos. Lembrava-se, como se fosse hoje, dos tempos em que ele e os amigos corriam descalços pelas margens do rio. O grande desafio do grupo era esperar pelo eco distante da locomotiva a vapor. Quando o chão começava a tremer e o fumo negro subia além das árvores, o mestre da estação dava o aviso. Era o momento exato: os rapazes prendiam a respiração e mergulhavam do tabuleiro diretamente para as águas profundas, mesmo antes de o "quimboio" rasgar o horizonte.
Os anos passaram célere e a modernidade trouxe novas automotoras rápidas, silenciando o velho vapor. Contudo, a velha ponte de ferro permaneceu intacta, como um monumento ao progresso material e à ligação entre terras distantes. Ti Antunes, que acabou por trabalhar uma vida inteira na ferrovia, tornou-se o guardião oficial daquelas memórias.
Hoje, a "ponte de quimboio" já não vê passar carruagens cheias de passageiros. Transformada numa bonita ecopista pedonal, continua a unir as duas margens do rio e a receber turistas que procuram as melhores fotografias e um pouco da história da ferrovia. E ali fica o velho Antunes, sorrindo a cada passo dos caminhantes, sabendo que enquanto a ponte ali estiver, o eco do seu "quimboio" nunca deixará de cantar.