This is not collectible.
PT: [Texto extraído de Brandão B (2009) Avaliação do Geopatrimónio no troço Adraga-Magoito (Sintra) da Grande Rota “Caminho do Atlântico” GR® 11-E9. Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, Lisboa.]
Apesar de o ser humano ser dotado de uma propensão natural para viajar, observar e conhecer os ambientes que lhe são distintos reconhece-se na população portuguesa uma clara desconsideração sobre as Ciências da Terra (especialmente sobre as de índole geológica - Dias et al 2003). Brandão et al (2002) justificam este desconhecimento não por falta de apetência do público em geral para o conhecimento da história natural mas por não haver, em Portugal, uma fácil acessibilidade às coleções geológicas. O geoturismo surge, assim, para responder à aptidão natural para a descoberta do meio e à disposição para o conhecimento do património in situ e não em coleções de difícil acesso.
Pode afirmar-se que o geoturismo é a vertente da atividade turística dominada pelo interesse pela geodiversidade e pela história geomorfológica da Terra. A definição de geoturismo, no entanto, não gera consenso: por exemplo, Hose (2000), consegue apresentar vários significados, entre os quais o primeiro a ser amplamente publicado (1995), que caracteriza o geoturismo como a “provisión de servicios y facilidades interpretativas que permitam a los turistas adquirir conocimientos y comprensión de la geología y geomorfología de un lugar (incluyendo su contribuición al desarrollo de las Ciencias de la Tierra), más allá del nivel de una mera apreciación estética” (Hose, 2000: 147). O mesmo autor atualiza o seu conceito de geoturismo para “provisión de facilidades interpretativas y servicios para promocionar el valor y los beneficios sociales de los lugares y materiales geológicos e geomorfológicos, y asegurar su conservación, para el uso de estudiantes, turistas e otras personas con interés recreativo y de ocio” (Hose, 2000: 147). Esta definição jáinclui a noção, imprescindível, de sustentabilidade do geopatrimónio que fica sujeito a uma oferta de bens e serviços que promovam a sua interpretação e divulgação.
Para além da vertente turística, o geoturismo pode ser um elemento fundamental do desenvolvimento regional como o confirma Martini (2000: 170) quando afirma que “el patrimonio geológico y el geoturismo son componentes esenciales en las políticas de desarrollo sostenible de los territorios” mas também “la clave para la protección y reconocimiento de nuestro patrimonio geológico. Poner 4000 M.a. de historia de la Tierra al servicio del mañana”.
A dimensão da geodiversidade varia a nível global de acordo com as diferentes fases da formação e história evolutiva da Terra e dos seus continentes. Assim, varia regional e localmente, sendo a partir dela que se estruturam as paisagens e se estabelecem as suas componentes atmosféricas locais, bióticas (flora e fauna) e culturais. Cabe, assim, a cada sociedade, preservar a sua geodiversidade local e considerá-la como sendo o seu geopatrimónio.
Da visão geográfica surge a noção de património geomorfológico, discutido por Pereira (1995: 7) e Pereira et al (2007) que engloba “o conjunto de formas de relevo (e depósitos correlativos) que, pelas suas características genéticas e de conservação, pela sua raridade e/ou originalidade, pelo seu grau devulnerabilidade, ou ainda, pela maneira como se combinam espacialmente (geometria das formas de relevo), evidenciam claro interesse científico”, mas também didático, cultural, recreativo, estético, económico e ecológico. A esta divisão, Pereira(2006: 66) acrescenta e valoriza a interdependência entre património geomorfológico epaisagem, ou seja, distingue-os pela “dimensão dasgeoformas e o seu contributo determinante” para a formação da paisagem.
Por vezes, em alguns elementos, é difícil estabelecer a diferença entre património geológico e património geomorfológico, optando-se, por isso, por incluir ambos na designação de geopatrimónio. Este tem sido definido como a totalidade dos elementos naturais abióticos da superfície terrestre com valor patrimonial, o que inclui, para além do geológico e do geomorfológico, o património hidrológico, pedológico e paleontológico (Rodrigues e Fonseca, 2008). A estes podem adicionar-se ainda os elementos astrogeológicos exteriores ao Planeta Terra.
Dos elementos que consideramos geopatrimónio, salientamos os geossítios (ou geótopos), os “locais de particular interesse geológico, quer por motivos científicos ou pedagógicos, quer, ainda, pela sua espetacularidade” (Ramalho, 2004: 6) que se destacam e merecem particular interesse e/ou proteção. Ramalho (2004), mesmo sabendo que não se esgotam na ciência, educação e economia os interesses múltiplos que a existência e preservação dos geossítios podem gerar, apresenta e justifica alguns argumentos para a importância e, consequentemente, a preservação dos geossítios, por:
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Serem testemunhos do passado da história da Terra, ocorrendo de forma particularmente interessante e pouco frequente ou rara e sendo muitas vezes, locais únicos;
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Terem interesse científico, permitindo o conhecimento aprofundado do passado
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da Terra, e, mais localmente, da evolução do nosso território;
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Possuírem interesse pedagógico, oferecendo aos alunos e ao público em geral, a exemplificação dos fenómenos geológicos;
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Apresentarem interesse turístico, uma vez que o turismo de Natureza é uma componente com crescente interesse económico.
Destes, os mais relevantes a nível nacional ou regional são classificados legalmente, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 19/93 como Monumentos Naturais (ou
Geomonumentos, exemplo na figura 2.1), onde são definidos como “
ocorrência natural contendo um ou mais aspetos que, pela sua singularidade, raridade ou representatividade em termos ecológicos, estéticos, científicos e culturais, exigem a sua conservação e a manutenção da sua integridade” (art. 8.º), ou seja, são “
georrecursos culturais”, tal como defende Carvalho (1999: 5).
Mas não só de ocorrências geológicas singulares se preenchem os territórios. Consideram-se também as
geopaisagens que são os excertos de paisagem em que a geomorfologia do local e/ou a presença de geossítios faz dela geopatrimónio com valores e interesses. A uma escala mais abrangente, usa-se a definição de
geoparque, que consiste numa região de turismo “com limites bem definidos e com uma área suficiente alargada” (Brilha, 2005: 119), cujo produto integrador e de desenvolvimento socioeconómico regional são os “locais de interesse geológico de especial importância científica, singularidade ou beleza” mas também os “valores arqueológicos, ecológicos, históricos ou culturais” (Lima e Gomes, 2001: 102) em que se pretende um desenvolvimento sustentável baseado na geoconservação. No final dos anos de 1990 os geoparques passaram a estar sob a égide da UNESCO e, mais recentemente, têm vindo a ser classificadas um número cada vez maior de regiões (com diferentes características e valores), tanto em Portugal como na Europa e no Mundo.
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