🐓🐕 São Torpes – Lendas e História

Salvio Torpes foi um valioso conselheiro de Nero, convertido ao Cristianismo por São Paulo e martirizado por causa da sua fé. Segundo a tradição, foi flagelado e decapitado, e o seu corpo colocado numa jangada lançada ao rio Arno, em Pisa, acompanhado por um galo e um cão.
A lenda siniense relata que o corpo atravessou meio Mediterrâneo e parte do Atlântico até chegar à costa portuguesa de Sines, na zona da Junqueira-Provença, por volta do ano 67. Existem três versões da lenda:
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A cabeça do mártir teria chegado à praia portuguesa, e o corpo à praia francesa de Saint-Tropez;
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O inverso;
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Toda a jangada teria aportado na Junqueira-Provença.
A cabeça do santo, segundo a tradição, encontra-se atualmente no Mosteiro dos Frades Mínimos de São Francisco de Paulo, em Itália.
Celarina, ou Celerina (ou Catarina), é a figura feminina da lenda. Viúva de um governador romano, retira-se de Évora para Sines após a morte do marido. Guiada por um anjo em sonhos, dirige-se à praia para receber o corpo do mártir, que encontra na jangada de junco, vigiado pelo cão e pelo galo.
A partir deste ponto, a lenda cruza-se com a história: teria sido erguido em Sines um dos primeiros templos cristãos da Europa. Celarina sepulta o corpo junto à ribeira da Junqueira. Informado por ela, São Manços, bispo de Évora, ordena a construção de uma basílica no local [Arnaldo Soledade].
Vários autores medievais e modernos mencionam a existência e a importância deste templo (Gerfou, Santo Andou, Usuardo, entre outros), descrevendo, por vezes, qualidades arquitetónicas e artísticas. Alguns chegam a considerá-lo a primeira igreja cristã da Europa, em concorrência com templos de Saragoça e Avinhão.
Contudo, estudiosos como Vítor Torres Mendonça, em A Jangada de São Torpes, consideram pouco credível a localização exata do templo, enquanto José Leite de Vasconcelos sugere que se terá confundido o templo com o dólmen da Junqueira. Caso tenha existido, o desaparecimento da igreja é atribuído aos Bárbaros ou aos Mouros.
No final do século XVI, o Papa Sisto V solicitou ao arcebispo de Évora a verificação da existência das ossadas de São Torpes na Junqueira-Provença. Foi encontrado um túmulo de mármore com um esqueleto humano, mas sem cabeça, acompanhado de uma lápide que certificava a autenticidade dos ossos. As escavações trouxeram ainda à luz um crânio, identificado pelos trasladores como sendo de Celarina. Um século mais tarde, os ossos foram transferidos para a Igreja Matriz de Sines, acabando por se perder.
Uma ermida dedicada a Celarina foi erguida na ponta leste de Sines, junto ao mar, permanecendo de pé até ao século XVIII, mas desaparecendo posteriormente. Em 1969, o historiador Arnaldo Soledade identificou algumas das suas pedras numa casa particular.
A outra lenda de São Torpes
O lugar de São Torpes tem ainda outra lenda popular. Onde hoje se estendem as dunas, existia outrora uma aldeia que foi soterrada por uma tempestade de areia. O fenómeno foi tão intenso que oito dias após a tempestade, ainda se dizia ouvir um galo a cantar debaixo da terra.
Fontes:
