No coração de Vila Nova da Caparica, o Parque Urbano estendia-se como um oásis verde entre o bulício da cidade e o sussurro do Tejo ao longe. Era um lugar de pinheiros altos, relvados bem aparados e trilhos sinuosos, onde famílias passeavam, crianças corriam e geocachers, esses caçadores de tesouros modernos, procuravam segredos escondidos. Foi numa manhã de nevoeiro, com o sol a tentar romper as nuvens, que a notícia correu entre a comunidade local de geocaching: uma nova cache mistério, baptizada de O Enigma da Capela Esquecida, fora publicada no Parque Urbano. E não era uma cache qualquer. Dizia-se que o seu criador, conhecido apenas pelo pseudónimo Sombra do Tejo, era lendário por enigmas que desafiavam até os mais experientes.
Clara, uma geocacher novata mas determinada, decidiu que esta seria a sua primeira grande aventura. Munida do seu telemóvel, um caderno de notas e uma caneta, dirigiu-se ao parque ao amanhecer. O ar fresco cheirava a erva molhada e a pinho, e o silêncio era apenas quebrado pelo canto matinal dos pássaros. A descrição da cache, que Clara lera vezes sem conta, era críptica: “Onde a capela guarda o segredo, segue o caminho das cinco pedras. Conta os passos, mas não os teus. O tesouro espera onde o sol não toca.” Junto à descrição, um conjunto de coordenadas falsas e um puzzle que envolvia decifrar uma sequência de números e letras escondida numa imagem de uma antiga capela em ruínas.
Clara começou pelo ponto de referência: uma placa informativa no centro do parque, perto de um lago onde patos deslizavam serenamente. A placa mencionava a história do parque, mas nada sobre uma capela. Intrigada, Clara caminhou pelos trilhos, observando cada detalhe. Foi então que reparou num caminho secundário, quase escondido por arbustos, que levava a uma clareira. Lá, entre ervas altas, encontrou cinco pedras dispostas em círculo, como se fossem um marco antigo. “As cinco pedras”, murmurou, sentindo o coração acelerar.
Seguindo as instruções, Clara tentou decifrar o que significava “contar os passos, mas não os teus”. Olhou em volta e reparou que, a poucos metros, uma família de patos atravessava o trilho, deixando pegadas na terra húmida. Contou os passos dos patos – cinco, exactamente – e seguiu na direcção que apontavam, rumo a uma zona mais sombria do parque, onde os pinheiros formavam uma abóbada natural. Ali, o sol mal penetrava, e o chão estava coberto de musgo. “Onde o sol não toca”, pensou.
Após alguns minutos de busca, os seus olhos fixaram-se numa árvore antiga, com um tronco largo e nodoso. Na base, quase imperceptível, uma pequena cavidade coberta por musgo revelou-se o esconderijo perfeito. Clara afastou a vegetação e encontrou uma caixa de metal, pintada para se fundir com a árvore. Dentro, um livro de registos, alguns objectos para troca e uma nota escrita à mão: “Parabéns, caçador. A capela nunca existiu, mas o mistério vive em ti. – Sombra do Tejo.”
Clara sorriu, registou o seu nome no livro e guardou a nota como troféu. Enquanto regressava ao trilho principal, o nevoeiro dissipava-se, e o Parque Urbano parecia brilhar com uma nova magia. Ela sabia que esta não seria a sua última aventura.